Ontem entre um Metallica e um Caetano, lembrou de Motorhead, desde então não parou!
Está gostando muito desse som pesado, despejando melancolia e bravatas agressivas nas suas tardes geladas.
Sim, está fazendo um frio de machucar o rosto, de riscar a pele. Em compensação está fazendo um céu azul, azul todos os dias, um azul que ela nem sabe de onde vem.
Suas mãos estão frias, seu cabelos cobreados estão sempre com as pontas húmidas, frias.
Sua conta bancária está quase 400 reais negativos, ela andou pagando umas contas e indo assistir filminhos baratos em um cinema grande que fica aqui perto.
Ela sangra pelas pernas,
suas narinas estão ressecadas como nunca estiveram
Ela anda impaciente e melancólica
Em uma dessas tardes de inverno, ele quis que todos saíssem, mas não podia expulsa-los, e isso só triplicou sua angústia de mais uma tarde dessas sem sentido.
Sentido em produzir, ser pratica, realizadora, não, definitivamente não. Não conseguia, não queria, não podia! As vezes simplesmente não da!
Ela queria só jogar suas roupas do velho armário no chão, rasga-las, cortar-se um pouco, dançar e talvez depois, dormir. Talvez.
Ela entrou no chuveiro, assistindo seu sangrar, sangrar sem fim...
Ficou muito tempo deixando a agua quente cair na sua pele fresca, lavar o sangue, enfiou a toalha de banho perto da garganta para abafar o grito, abafar o berro.
O berro do desespero sem fim, da angústia sem endereço,
Pensou no sangue que saíra de dentro de si pela via errada, talvez ele desejasse sair por outra via...
Anda com uma vontade violenta de dirigir um carro, de dirigir bastante em uma estrada.
A impossibilidade de fazer isso, a atormenta de uma maneira estrondosa, violenta.
Está frio, está sangrando
está azul... está sozinha!
Suas mãos estão frias, muito frias
Ela quer fazer um bolo, mas não sabe se vai ter paciência.
Não sabe.

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