

Ela entra naquela casa sem nem saber mais quem ela é, ela já não é mais a mesma. Fato.Não é aquela garota de olhos castanhos grandes com uma maquina fotográfica na mão,
falante e cheia de expectativas com dias mais ensolarados com os moradores daquela casa.
O Paradoxo é escancarado, entre realidade e sonho.
Seus cabelos agora tingidos de um vermelho estonteante, um vermelho fogo, seus sapatos ruidosos atravessa a pequena loja, que está praticamente vazia, ela interrompe um gole de café ou agua, não se lembra bem. Faz um cumprimento formal e meio frio, para o dono da loja.
Os olhos castanhos grandes, estão meio acanhados, sente-se terrivelmente deslocada.
Adentra a casa, encontra com a mulher, a dona da casa, a senhora R.
Que para seu desconforto, parece estar ainda mais deslocada com a sua presença, seu sapatos ruidosos, seus cabelos desgrenhados tingidos de vermelho, parecem deixar a dona da casa um pouco intimidada.
Não tocam em nenhum assunto delicado.
Mas ela gostaria, gostaria muito na verdade. Mas por alguma razão, por alguma trava, não vê oportunidade, não sabe se há razão.
A Mulher lhe oferece suco, coca cola, bolo, ela aceita um pedaço de pudim, falam sobre teologia, com um dos moradores, nada profundo, dados históricos... Só!
Recebe uma ligação, atende, apressa-se para ir embora, a mulher insiste em lhe mostrar a nova reforma. As paredes externas ganharam cores fortes, amarelo, amarelo Sol, é o nome daquela cor. Extravagante, alegre...
A Casa ganhou um novo cómodo, pintado de amarelo, tem algumas poucas plantas, telhado, luminária...
Está frio.
Escuro e frio.
A mulher pinta suas unhas com um esmalte azul brilhante, enquanto pinta suas mãos, fala da preocupação com a queda do cabelo brusca, fala de como uma das moradoras está inchada e gorda e que não cuida da saúde, fala da inveja dos vizinhos, dos maus agouros...
Faz uma pergunta tola!
Ali, ali nascia aquela oportunidade de desbravar seus pensamentos e jogar um monte de merda no ventilador, mas não podia faze-lo, porque bem perto delas tinha uma criança. Pequena, mas suficientemente capacitada para entender e talvez ela não quisesse que essa criança participasse daquela nuvem de desencontros e desinteresses.
Ela quer ir embora
Ela passou 7 semanas sem telefonar, 7 semanas sem aparecer
e quando finalmente esta lá, sente-se tão indesejada, ao mesmo tempo que sente-se um pouco desejada ali.
É nebuloso.
Pega a criança pelas mãos, agora com unhas azuis.
A bolsa vermelha de roupas, despede-se e sai sentindo a garoa fina, fria, e não sabe quando vai voltar.
Sente-se assim tão vazia.
Não vê mais sentido na banalidade daqueles moradores
Sente-se terrivelmente incomodada.
Nesta noite chega há uma polémica sensação.