Enquanto a chuva escorrega no chão lá embaixo
Toca um disco velho de jazz
Seus cabelos estão recortados da forma mais mau feita dos últimos tempos
Ela entrega o filme na Locadora
Ela desce no ponto errado e caminha no meio da chuva
Ela vai ao cinema
Ela paga muito caro em sanduíche pequeno
Ela bebe vinho e vê fotos que foram feitas algumas semanas atras
Ela sente saudades
Ela gostaria de receber um telefonema no meio da tarde
Ou quem sabe logo pela manhã, antes mesmo de escovar os dentes
Ela gostaria de receber dois telefonemas
Ela gostaria de receber convites
Ela sente falta, não muita, alguma.
Ela não quer ligar
Não mais uma vez.
A chuva cai, os goles do vinho tinto escorrem por sua garganta seca
Ela bebe todas as noites
Tem uma semana já que isso está acontecendo
Ela não fuma mais
Não fuma a três semanas
Muita alergia
Ela dorme nua todas as noites
As vezes lambuzada de creme francês
Outras, com gotículas de agua quente do chuveiro
Ela dorme sem banho outras vezes, poucas vezes
Com cheiro umido das virilhas
Insetos voadores e silenciosos brincam nas suas nádegas e coxas
Impipocam
O Algodão acabou, algumas noites adormece antes de demaquilar os olhos
Borrados de cansaço
Ela ouve a chuva cair no silêncio da madrugada de Segunda

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