Vó Teresa, Logan e eu, casamento da minha tia, entre 2003/2004Grécia
Minha vó já estava morta e eu estava entrando na sala de cinema.
Ninguém me ligou, ninguém me avisou. Ao meio dia liguei para o meu pai, e ele disse que as notícias não eram boas, que o hospital havia solicitado a presença da família.
Ela esta morta.
Mas a memória da minha infância esta viva.
Tão viva, me recordo de coisas, que nem lembrava mais. Eu gostava dela. Era afetuosa, falava bobagens e cozinhava em panelas enormes, sempre muita comida. Em Setembro, a gente ia com ela em casas de doces, pra preparar a festa de São Cosme e Damião, era uma alegria, uma farra. Fazia uma fila gigante na porteira do sítio, todas as crianças da região já sabiam, e a gente ajudava ela a distribuir os doces... Dentro do armário da cozinha, ficava uma imagem dos dois santos, e ela ofertava um punhado de doces pra eles, que ningúem podia tocar ou comer. Achava interessante aquilo, ao mesmo tempo que estranho. Como o santo ia comer? Iamos na horta, subiamos o morro, voltávamos cheias de alface, couve e bananas. Ela era magra alta, tinha uns olhos de gata... aquela vó com o facão na mão e seus tregeitos mineiros. Ela era muito forte e destemida, eu achava. Estendia roupas brancas no varal, dava de comer pras galinhas e pra aquele bando de cães famintos. No sitio sempre teve muito cachorro e todos muito gulosos. Depois a noite, a gente tomava banho e ia lá pro fogão a carvão, que tinha na edicula, assar bananas. Bananas verdes assadas. Hum! Sabor de infância.
Acho que essa era a parte que eu gostava de ir pro sítio.Não as da bannas, mas da minha vó, magra, corajosa e maluca. Essa, ajudava eu driblar primos chatos, tios moralistas, o barro, a lama das estradas, o banheiro apertado com a descarga de cordinha, o unico da casa, daquela casa cheia de tios e netos. O meu vô brigando comigo, me chamando de amarela, porque eu só queria comer arroz puro, sem as verduras do sítio. Nesta epóca eu tinha horros delas, e a insistência do vô pra eu come-las, só me afastava das hortaliças.
Lembranças de infância, de uma mulher corajosa e atrapalhada, fantasiosa. Ela sonhava, ela tinha os sonhos mais malucos. Sabe que agora lembrando dessas coisas, eu vejo quantas coisa herdei dessa mulher. Os olhos, o queixo e a maluquice... Gostei.
Era na casa dela que eu passava alguns dias das férias, longe da repressão militar do meu pai, da bipolaridade da minha mãe e da chatice da minha irmã. Ficava eu e a Gabi, minha prima uns 4 anos mais nova, a gente brincava e ajudava a vó todos os dias. Dias doces.
Na adolescência, na pré adolescência já, não ia mais ao sítio, o universo ao redor não me apeticia mais, muitas histórias, muitas confusões de familia, fez com que eu me afastasse. Eu fui cuidar da vida. Estava muito ocupada nesse tempo, a dois anos atráz foi minha vó materna, que morreu, com ela tinha uma proximidade gigante, e no dia que a entarramos, fómos para o sítio. E minho vó, minha vó Teresinha recebeu-nos muito bem, sempre sorridente, preocupada em agradar. Foi um dia mágico.
Loco.
A gente tinha acabado de enterrar uma vó, e estava curtindo a outra e o vô também.
Pensei em voltar lá um dia e levar o Logan pra conhece-los, fazer uns retratos, mas não fui. O tempo mais uma vez me fez muito ocupada, a distância também. Ela me telefonou, ela e meu avô, no meu penúltimo anivesário, admito que me senti lisongeada e feliz com aquela lembrança. Mas eu não liguei de volta depois, nunca mais. Mais uma vez a distância.
Vou guardar com carinho, as mais doces lembranças da minha infância.
Estou triste.
Muitos estão.

Paisagem na Neblina****
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