
Um milhão de coisas acontecendo ao mesmo tempo, e no meio desse caos a gente tem que arranjar um tempo pra se organizar.
Acho que eu gosto do caos, ele me ajuda a me organizar, eu preciso dele, como a personagem da Leandra Leal naquele filme meio tosco.
Sei lá, le texto de teatro, mistura as folhas, faz exercicio de vóz, atravessa a Luz, ao som de Arnaldo Antunes, seguido de Mano Chau.
Sinto minha pele aspera com o ar frio que sopra, parece que estamos no Outono. Um mega calor durante o dia, e no fim da tarde, o chão ilustrado de folhas secas e algumas flores murchas, o vento gelado atravessa o tecido felpudo do casaco, e a cidade é linda. Linda.
A estação da Luz é uma das coisas mais bonitas e mais bizzaras que tem nessa cidade. Aquele relógio imenso, arquitetatura... e aquelas putas decadentes, com seus cabelos pintados, sua maquiagem barata e falando sabe-se la o que na orelha de um sujeito mion e varzeano, enquanto os trens correm os trilhos abaixo deles. Ele deve ter uma vidinha simples em Mogi das Cruzes, ou Suzano, muito que provável que more num desses municipios bem longes da cidade, sempre ta por ali na estação, as 18hs , trabalha ali, nas imediações, como ajudante geral, auxiliar de escritório, almoxerifado, uma coisa dessas, e de tanto ver aquelas putas, que nada tem a ver com a Irene, ou a Renata, mãe de seus tres rebentos, costura pra fora e vende yakut. Com certeza tem um cabelo comprido e liso, é magra e ingênua, mas durona. De tanto olhar aquelas putas de cabelos amarelados, sorriso esganiçado, batom vermelho, olhos pretos, meias de nylon.. Nào a que fala e fala agora com ele sem parar,essa nào, essa usa mini saia jeans surrada, botas baratas até o joelho de bico fino, cabelos enrolados e negros, corpo magro, rosto vulgar, selvagem... Ele olha pra ela encantado e ela fala, fala, sem nem saber se é ouvida. Esta prosa. Mas o que a motiva a isso? A vida nas ruas, a centenas de homens que já se deitou, esta enlouquecida, nunca leu Bukowski, não frequentou a escola, mas sabe ler razoavelmente, fuma maconha e toma pinga, mais pinga, que maconha de certo.
Dividi um quarto com tres colegas, todas putas. Ele só escuta e olha encantado pra ela, nào quer come-la, acha arriscado, pode pegar alguma doença ele pensa, e depois ela nem é tão gostosa assim, sua Irene é mais bonita, de fato. mas ela o seduz, a sua vida, sem horarios, sem trens lotados, isso o seduz e muito. Ela fala, gesticula e agora fuma, um cigarro, derby, suave, provavelmente. Ele se despede, mas ela passa as màos nos cabelos e volta a falar sobre algo muito grande, que pode ser sua vinda pra São Paulo, de alguma cidade mineira, ou a primeira vez que dormiu na rua. tanto faz. Ele volta a prestar atençào nela, e eu passo, passo com passos largos, eu e mais uma centena de transeuntes.

Um comentário:
Possessing and caressing me...
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